quinta-feira, 19 de junho de 2008

Fotos de Família

Este é o Leo.

Nasceu a meio da Primavera do ano 2000, na Praia das Maçãs.

Passei por lá num dia de quase Verão para ir buscar uma gatinha tricolor que precisava de um lar, só que enquanto a iam buscar dei por mim a ser observada atentamente por este cavalheiro. Baixei-me, sentei-me de pernas cruzadas no chão de cimento, estendi a mão devagarinho mas não chamei, nem disse nada. Fiquei só assim, a ser conquistada por aqueles olhos de contornos pretos bem marcados. Ele aproximou-se decidido, com o tipo de coragem que só os gatos muito jovens têm, para mostrar aos estranhos e ao mundo quem são e saltou para o meu colo.

Percebi naquele exacto momento que tinha sido adoptada. Voltámos os dois para casa nesse fim de dia. A adaptação não foi fácil, era um gatinho da praia que vivia no meio de muitos, já não tinha mãe mas tinha o grupo que cuidava dele e o Senhor do quiosque que os alimentava e à noite dava abrigo às gatas com crias. O Leo vinha doente, nas primeiras noites teve imensos pesadelos e miava a dormir mas com o passar do tempo aprendemos a conhecermo-nos, a respeitar o espaços e os tempos de cada um. Somos inseparáveis desde então, não consigo imaginar a minha vida sem ele presente e gosto de pensar que é recíproco.

Soube na semana seguinte que a gatinha tricolor já tinha uma família e estava bem. Nos meses que se seguiram passei várias vezes pelo quiosque para dar notícias. O Senhor de lá chegou a pedir-me que levasse uma foto; o Leo nunca seria esquecido porque, como só me contou depois, a mãe gata tinha sido atropelada e ele e a mulher tinham cuidado das crias ainda com os olhitos fechados; da ninhada sobreviveram dois: a gata que morava com eles e o Leo. Como eles não podiam ter mais gatos em casa ele tinha levado o Leo para o quiosque, para que o grupo o adoptasse, mas o destino dele não seria tão risonho, o Inverno na praia não era fácil e nessa altura o quiosque não abria, os bichos ficavam entregues a eles próprios.

Passados oito anos ainda dou com o Leo muitas vezes a cheirar o vento quando ele sopra do lado da Serra de Sintra, só que não é só ele, sou eu também. Procuramos o cheiro do mar que fica para além da Serra, cheira a saudade, a liberdade de andar à solta. Passo-lhe o meu braço à volta do pescoço de pelo macio, ele olha para mim e olhamos os dois para o céu de noite escura. Voltamos para dentro e enroscamo-nos no sofá.

5 comentários:

Azelpds disse...

Eu quando fui buscar um gato ao meu pai (só tinha tido cães até então) não era para ser a Nina, mas sim um irmão dela, pois ela já estava guardada para outra pessoa, mas... Aconteceu exactamente isso de ela vir ter comigo e uma empatia entre ambos logo na hora.

Há quem diga que são os gatos que escolhem os donos e não o contrário. :)

Hoje em dia, após 13 anos, continuamos inseparáveis também, com momentos que não dá para descrever sem estarmos lá a vive-los. ^_^

Sofia disse...

Nem sei que te diga... torna-se muito interesante esta partilha de sensibilidades em comum.

Fomos escolhidos pelos nossos gatos, enorme privilégio o nosso. :)

Coincidências?
São como a história das bruxas, não se acredita nelas, mas que as há, há!
E só para contrariar a máxima, eu até acredito hehe ;)
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Azelpds disse...

oh, mas as coincidencias claro que existem. :)

São daquelas coisas que até acho bastante piada, mas que por vezes tento nem pensar muito nelas porque sei que se o fizer encontro ainda mais além das muitas que já existem.

PS: O leo tem uns olhos lindos, bue expressivos.

liliana_lourenco disse...

:) Tão lindo o teu Leu!

Quando vejo gatos lembro-me sempre dos meus gatinhos (Charly e Lolita) e da falta que me fazem.

E quando vejo cães lembro-me do meu King, lindo, grande, porcalhão, valente e destemido! :)

Que saudades..

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Sofia disse...

:) Obrigado.

Mas de vez em quando vais a casa, não é... tou prá qui com coisas mas eu sei bem que não é igual e não chega. Eu ía morrendo nos meses que dei aulas em Lagoa e os Leos ficaram no Cacém, sózinhos em casa, na altura, só com os meus pais a virem cá tratar deles. Nem imaginas a festa que era todas as sextas à noite quando eu chegava!

Demorou uns meses a procurar casa por lá onde me deixassem ficar com eles, mas não desisti até conseguir. Entretanto acabou-se o contrato e eu voltei. Aprendi que se alguma vez tiver que voltar a "emigrar" para trabalhar nunca mais irei sem eles.
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